Diário da Queda e da Cura
Quando os “nãos” da vida são os “sins” da alma
Reflexão sobre os caminhos invisíveis do destino e a sabedoria da alma que conduz mesmo quando tudo parece ruir.
Este texto fala de como decisões que pareciam “erradas”: um exame que não trouxe o resultado esperado, voos cancelados, relações que terminaram, a mudança de país... Abriram portas para alguns dos momentos mais transformadores da minha vida.
Há cerca de um ano comecei um enorme processo de desconstrução e renascimento. Uma das formas que encontrei para não me perder na mágoa foi propor-me objetivos, traçar metas, dar direção ao que doía.
Uma dessas metas era finalmente alinhar-me profissionalmente com aquilo que sempre senti no coração: o desejo profundo de compreender e cuidar das pessoas a partir da alma.
Candidatei-me ao curso de Psicologia, no fundo porque queria ter um diploma que validasse o que já sentia em mim, o dom de acompanhar processos humanos. Procurava legitimar o que já sabia interiormente: compreender e cuidar da alma. Sabia que a minha forma de o fazer seria sempre mais espiritual do que técnica, mais ligada às aprendizagens invisíveis e às curas silenciosas. Talvez quisesse apenas proteger-me da pergunta que tantas vezes ecoou dentro de mim: “Quem és tu para fazer isto?”
Aproveitei a época do exame para tirar uns dias de férias em Portugal, e foi durante essas férias que participei num encontro organizado pela querida Ana Oliveira. Nesse encontro, uma semente foi plantada e, desde então, passei a acompanhar de perto o seu trabalho.
Meses depois, voltei a Portugal por motivos médicos. Era uma visita rápida, sem tempo para nada além do essencial. Mas soube que haveria um novo encontro do grupo da Ana em Coimbra, no dia seguinte. Queria muito ir, mas já tinha os bilhetes de avião comprados e não queria alterar os meus planos.
Foi então que, minutos antes da consulta, recebi um e-mail: o meu voo tinha sido cancelado. Entrei em pânico, ainda sou inexperiente nestas coisas de aviões e voos cancelados. E claro, a primeira reação foi tentar a todo o custo comprar um novo bilhete. Mesmo com greve nos aeroportos franceses e sem voos acessíveis, acabei por comprar outro, caríssimo, e ainda com seis horas de escala em Madrid.
Quando cheguei ao aeroporto, percebi que, se o meu primeiro voo não tivesse sido cancelado, eu o teria perdido e, além disso, perderia também o direito ao reembolso. Percebi então que, se me tivesse acalmado, respirado e refletido com consciência, teria aceitado o cancelamento, aproveitado para estar presente no encontro em que tanto queria participar e viajado dois dias depois, pelo mesmo preço do voo inicial — e em paz.
Foi então, no meio desse caos, que comecei a perceber: o universo estava a tentar guiar-me e eu, em vez de aceitar o que estava a acontecer, escolhi resistir. Ali compreendi que, às vezes, os “cancelamentos” da vida são formas delicadas de proteção, são o universo a sussurrar: “Segue o coração.” E, nesse instante, soube: eu não podia perder a viagem a Roma que a Ana estava a preparar.
A viagem chegou, e foi tudo o que a alma precisava: intensa, transformadora, mágica. Sinto que há uma Telma antes de Roma e uma Telma depois: mais inteira, mais desperta, mais disposta a viver alinhada com o que acredita.
Se eu não tivesse feito aquele exame, que no fim não trouxe o resultado que eu esperava, não teria vivido uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Se eu não tivesse passado pelo caos de perder um voo, não teria aprendido a confiar no Universo. Se, há um ano, não tivesse deixado uma relação que já não era saudável, não teria conhecido o maior processo de crescimento interior que alguma vez vivi. E se há dois anos eu não tivesse deixado Portugal, no meio de tanta incerteza, não teria descoberto um novo país, aprendido uma nova língua, viajado pela primeira vez e percebido que consigo recomeçar quantas vezes forem precisas.
Hoje percebo que as pessoas têm muito medo de tomar as decisões erradas; no entanto, foram justamente as decisões “erradas” que me fizeram crescer, expandir e ver-me com outros olhos. Foram elas que me ensinaram a confiar, a não me prender ao que se desmorona e a perceber que cada “não” que a vida me deu foi, na verdade, um “sim” da alma.
E é por tudo isto que já não tenho medo de errar. Porque cada vez que a vida desfez um plano, foi apenas para me mostrar um caminho mais verdadeiro.
Telma Francisco — Diário da Queda e da Cura