Diário da Queda e da Cura

Diário da Queda e da Cura

O Diário da Queda e da Cura é o espaço onde partilho com verdade os momentos que transformaram o meu caminho interior: as quedas que abriram espaço para recomeços, intuições que nasceram no silêncio e aprendizagens que só se revelam quando a vida desmonta aquilo que pensávamos ser seguro.

São textos escritos a partir do coração, sem filtros nem pretensão de ensinar. Apenas a vida real vista pelo meu sentir.

Diário da Queda e da Cura

Quando os “nãos” da vida são os “sins” da alma

Reflexão sobre os caminhos invisíveis do destino e a sabedoria da alma que conduz mesmo quando tudo parece ruir.

22 outubro 2025

Este texto fala de como decisões que pareciam “erradas”: um exame que não trouxe o resultado esperado, voos cancelados, relações que terminaram, a mudança de país... Abriram portas para alguns dos momentos mais transformadores da minha vida.

Há cerca de um ano comecei um enorme processo de desconstrução e renascimento. Uma das formas que encontrei para não me perder na mágoa foi propor-me objetivos, traçar metas, dar direção ao que doía.

Uma dessas metas era finalmente alinhar-me profissionalmente com aquilo que sempre senti no coração: o desejo profundo de compreender e cuidar das pessoas a partir da alma.

Candidatei-me ao curso de Psicologia, no fundo porque queria ter um diploma que validasse o que já sentia em mim, o dom de acompanhar processos humanos. Procurava legitimar o que já sabia interiormente: compreender e cuidar da alma. Sabia que a minha forma de o fazer seria sempre mais espiritual do que técnica, mais ligada às aprendizagens invisíveis e às curas silenciosas. Talvez quisesse apenas proteger-me da pergunta que tantas vezes ecoou dentro de mim: “Quem és tu para fazer isto?”

Aproveitei a época do exame para tirar uns dias de férias em Portugal, e foi durante essas férias que participei num encontro organizado pela querida Ana Oliveira. Nesse encontro, uma semente foi plantada e, desde então, passei a acompanhar de perto o seu trabalho.

Meses depois, voltei a Portugal por motivos médicos. Era uma visita rápida, sem tempo para nada além do essencial. Mas soube que haveria um novo encontro do grupo da Ana em Coimbra, no dia seguinte. Queria muito ir, mas já tinha os bilhetes de avião comprados e não queria alterar os meus planos.

Foi então que, minutos antes da consulta, recebi um e-mail: o meu voo tinha sido cancelado. Entrei em pânico, ainda sou inexperiente nestas coisas de aviões e voos cancelados. E claro, a primeira reação foi tentar a todo o custo comprar um novo bilhete. Mesmo com greve nos aeroportos franceses e sem voos acessíveis, acabei por comprar outro, caríssimo, e ainda com seis horas de escala em Madrid.

Quando cheguei ao aeroporto, percebi que, se o meu primeiro voo não tivesse sido cancelado, eu o teria perdido e, além disso, perderia também o direito ao reembolso. Percebi então que, se me tivesse acalmado, respirado e refletido com consciência, teria aceitado o cancelamento, aproveitado para estar presente no encontro em que tanto queria participar e viajado dois dias depois, pelo mesmo preço do voo inicial — e em paz.

Foi então, no meio desse caos, que comecei a perceber: o universo estava a tentar guiar-me e eu, em vez de aceitar o que estava a acontecer, escolhi resistir. Ali compreendi que, às vezes, os “cancelamentos” da vida são formas delicadas de proteção, são o universo a sussurrar: “Segue o coração.” E, nesse instante, soube: eu não podia perder a viagem a Roma que a Ana estava a preparar.

A viagem chegou, e foi tudo o que a alma precisava: intensa, transformadora, mágica. Sinto que há uma Telma antes de Roma e uma Telma depois: mais inteira, mais desperta, mais disposta a viver alinhada com o que acredita.

Se eu não tivesse feito aquele exame, que no fim não trouxe o resultado que eu esperava, não teria vivido uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Se eu não tivesse passado pelo caos de perder um voo, não teria aprendido a confiar no Universo. Se, há um ano, não tivesse deixado uma relação que já não era saudável, não teria conhecido o maior processo de crescimento interior que alguma vez vivi. E se há dois anos eu não tivesse deixado Portugal, no meio de tanta incerteza, não teria descoberto um novo país, aprendido uma nova língua, viajado pela primeira vez e percebido que consigo recomeçar quantas vezes forem precisas.

Hoje percebo que as pessoas têm muito medo de tomar as decisões erradas; no entanto, foram justamente as decisões “erradas” que me fizeram crescer, expandir e ver-me com outros olhos. Foram elas que me ensinaram a confiar, a não me prender ao que se desmorona e a perceber que cada “não” que a vida me deu foi, na verdade, um “sim” da alma.

E é por tudo isto que já não tenho medo de errar. Porque cada vez que a vida desfez um plano, foi apenas para me mostrar um caminho mais verdadeiro.

Telma Francisco — Diário da Queda e da Cura


Diário da Queda e da Cura

A espera que eu não sabia que existia

Há relações que acabam no tempo, mas continuam dentro de nós. Este texto fala do momento em que percebi que a validação que esperava do outro era, na verdade, um movimento que precisava acontecer dentro de mim.

05 novembro 2025

Aqui partilho o processo de perceber que a cura não acontece quando o outro reconhece o que sentimos, mas quando deixamos de ficar presas à espera desse reconhecimento para seguir em frente.

Há um ano terminei uma relação. Apesar de ter sido uma escolha consciente, havia em mim a sensação de que algo permanecia em aberto, como se faltasse uma última conversa.

Em março tive o meu primeiro rasgo de consciência sobre tudo o que aquela relação me tinha vindo ensinar: a importância de colocar limites, de não me pôr desconfortável para agradar o outro, de cultivar a independência dentro de uma relação e de não colocar no outro a responsabilidade de me salvar. Percebi que o amor verdadeiro é o amor livre, aquele que não impõe a sua verdade, mas permite ao outro ser quem é.

Nessa clareza, percebi que também eu tinha errado. Senti a necessidade de pedir perdão por qualquer dor que pudesse ter causado e de desejar-lhe, do fundo do coração, que fosse feliz. Ao fazê-lo, senti que algo em mim se curava, como se o perdão abrisse espaço para o amor permanecer, sem peso nem história. No fundo, aquela pessoa veio apenas despertar-me para a necessidade de olhar para dentro e aprender a cultivar o meu amor-próprio.

Mas o tempo foi passando, e percebi que algo ainda não estava curado. Ele continuava muito presente nos meus pensamentos, até ao momento em que decidi parar e olhar para dentro: “Do que é que eu ainda preciso para seguir em frente?”

Foi então que percebi que continuava à espera que ele tomasse a mesma atitude que eu: que fosse capaz de reconhecer a sua parte, validar o meu sentir e compreender a minha ação. No fundo, continuava à espera de ser compreendida, vista e escutada. Mas, enquanto esperava, estava a abdicar do meu próprio poder pessoal. Permanecia, inconscientemente, presa à possibilidade de isso ainda acontecer.

Então decidi retomar o meu poder e perguntar-me: “Há ainda alguma coisa que eu queira fazer ou dizer-lhe?” A resposta foi não. Eu já tinha enviado a minha mensagem. Eu já tinha encerrado o ciclo.

Foi nesse instante que percebi: a cura não vem quando o outro nos valida; vem quando deixamos de esperar que ele o faça.

Muitas vezes permanecemos demasiado tempo presos a uma relação que já terminou, porque ainda esperamos algo do outro. É essa espera que nos mantém em círculos, entre o passado e o presente.

Mas, quando compreendemos que não é sobre o outro e sim sobre nós, podemos finalmente libertar-nos e libertá-lo. E, por fim, avançar para uma nova fase de consciência.

Diário da Queda e da Cura — Telma Francisco